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Febre na Floresta: A Amazônia Diante do Clima Mais Quente em 10 Milhões de Anos

Febre na Floresta: A Amazônia Diante do Clima Mais Quente em 10 Milhões de Anos

Por: Heudes C. O. Rodrigues

Por milênios, a Floresta Amazônica foi descrita como o pulmão úmido do planeta, um ecossistema de equilíbrio delicado e chuvas constantes. No entanto, o cenário está mudando de forma alarmante. Pela primeira vez em mais de 10 milhões de anos, a maior floresta tropical do mundo está entrando em um regime de clima hipertropical. Mais do que apenas "sentir calor", a floresta está atingindo limites biológicos que não enfrentava desde a época do Mioceno. O resultado é um fenômeno invisível e silencioso: as árvores estão começando a morrer de "insolação" metabólica.


O Que é o Clima Hipertropical?

Na climatologia e na ecologia, o termo "hipertropical" refere-se a condições de temperatura que excedem a faixa de tolerância histórica das espécies adaptadas aos trópicos. Por milhões de anos, a Amazônia operou como um sistema de ar-condicionado global, evaporando água para resfriar a si mesma e ao restante do continente.

No entanto, o aumento das temperaturas globais e o desmatamento criaram uma barreira. Quando a temperatura das folhas atinge um patamar crítico — geralmente próximo aos 47°C — a maquinaria da fotossíntese começa a falhar. Estudos recentes indicam que pequenas porções do dossel amazônico já estão cruzando esse limite, transformando o que era um ambiente úmido em uma estufa de calor extremo e seco.


Uma Janela para o Passado: O Mioceno e a Resiliência

Para contextualizar a gravidade do momento, é preciso olhar para a história geológica. Há cerca de 10 a 15 milhões de anos, durante o Mioceno, a Terra passou por períodos de aquecimento intenso. Naquela época, a biodiversidade amazônica era diferente, e as linhagens de árvores que vemos hoje ainda estavam se consolidando.

A grande diferença entre o passado e o presente não é apenas a temperatura em si, mas a velocidade da mudança. No passado, as espécies tinham milênios para migrar ou se adaptar. Hoje, a transição para o clima hipertropical está ocorrendo em décadas. As árvores centenárias, que sustentam todo o ecossistema, não possuem mecanismos genéticos para reagir tão rápido ao estresse térmico sem precedentes.


O Colapso da Fotossíntese: Por Que as Árvores Estão Morrendo?

Muitos acreditam que as árvores morrem apenas por falta de água (seca), mas o calor extremo traz um perigo adicional. As folhas possuem pequenos poros chamados estômatos, que se abrem para absorver CO2. Em dias excessivamente quentes, a árvore fecha esses poros para evitar a perda de água por evaporação.

As consequências desse fechamento são fatais:

  • Superaquecimento: Sem a evaporação para resfriar a folha, a temperatura interna do tecido vegetal dispara.
  • Fome de Carbono: Sem absorver CO2, a árvore para de produzir energia.
  • Falha Metabólica: Acima de um certo ponto, as proteínas responsáveis pela fotossíntese se desfazem (desnaturação), e a célula morre.

Pesquisas publicadas na revista Nature mostram que, embora a temperatura do ar possa estar em 35°C ou 40°C, a exposição direta ao sol pode elevar a temperatura das folhas para além dos 47°C, ponto em que a mortalidade foliar se torna inevitável.


O Ponto de Virada: Da Floresta à Savana

A morte das árvores de grande porte não afeta apenas a paisagem; ela altera o ciclo das "chuvas voadoras". As árvores mortas param de bombear umidade para a atmosfera, o que reduz as chuvas em regiões distantes, como o Sudeste do Brasil. Se a Amazônia continuar a transição para o clima hipertropical, corremos o risco de atingir o "ponto de não retorno" (tipping point), onde a floresta tropical se degrada irreversivelmente em uma savana empobrecida.


Conclusão: O Desafio de uma Geração

A Amazônia em clima hipertropical é um sinal de alerta da biosfera. Estamos testemunhando uma ruptura histórica que desfaz 10 milhões de anos de estabilidade climática. A morte das árvores por calor extremo é o sintoma mais claro de que a floresta está sendo testada além de suas forças. Preservar o que resta e restaurar áreas degradadas não é mais apenas uma questão de conservação, mas de sobrevivência para o sistema climático que sustenta a vida no continente. O futuro da Amazônia depende da nossa capacidade de reduzir a febre do planeta antes que o dossel da maior floresta da Terra se apague definitivamente.


Referências

Doughty, C. E., et al. (2023). Tropical forests are approaching a critical temperature threshold. Nature, 621, 105-111. https://doi.org/10.1038/s41586-023-06444-3

Lovejoy, T. E., & Nobre, C. (2018). Amazon tipping point. Science Advances, 4(2). https://doi.org/10.1126/sciadv.aat2340

Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC). (2024). Climate Change 2024: Impacts, Adaptation and Vulnerability. Cambridge University Press.

Nobre, C. A., et al. (2016). The Fate of the Amazon Forests: Land-use and climate change risks and the need of a novel sustainable development paradigm. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), 113(39), 10759-10768.

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