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O Espelho Cósmico: Cientistas Propõem que Vivemos em um Universo com um Gêmeo Invertido no Tempo

O Espelho Cósmico: Cientistas Propõem que Vivemos em um Universo com um Gêmeo Invertido no Tempo

Por: Heudes C. O. Rodrigues

Desde que Edwin Hubble confirmou que o universo está em expansão, a humanidade se acostumou com a ideia de um início explosivo: o Big Bang. No entanto, essa história sempre pareceu incompleta para os físicos. Por que existe mais matéria do que antimatéria? Por que o tempo flui apenas para a frente? Recentemente, uma teoria audaciosa proposta por físicos do Perimeter Institute, no Canadá, sugere uma resposta digna de ficção científica: o Big Bang não criou apenas o nosso universo, mas também um "universo gêmeo" que funciona como um reflexo no espelho, evoluindo para trás no tempo a partir do momento inicial.


A Simetria Fundamental: O Coração da Nova Teoria

Para entender essa proposta, precisamos falar de um conceito sagrado na física chamado Simetria CPT (Carga, Paridade e Tempo). Basicamente, as leis da física sugerem que, se você inverter a carga de todas as partículas, refletir o espaço em um espelho e inverter o fluxo do tempo, o sistema resultante se comportará exatamente como o original.

O problema é que o nosso universo, observado isoladamente, parece violar essa simetria. O tempo só avança e a matéria domina o espaço. Ao proporem um "anti-universo" que equilibra essas contas, os físicos Latham Boyle, Kieran Finn e Neil Turok sugerem que o cosmos total (o par de universos) obedece perfeitamente à Simetria CPT. Nesse cenário, o Big Bang não seria apenas um começo, mas um ponto de simetria entre dois mundos opostos.


Um Cosmos que Funciona "Ao Contrário"

Dizer que esse universo gêmeo funciona "ao contrário no tempo" pode confundir nossa intuição. Do ponto de vista de quem vivesse nesse outro cosmos, o tempo fluiria normalmente para eles, mas eles veriam o nosso tempo retroceder.

Nesse universo espelhado:

  • Cargas Invertidas: Onde temos prótons positivos, eles teriam antiprotons negativos.
  • Paridade Espelhada: A mão direita e a esquerda estariam trocadas nas interações físicas fundamentais.
  • Fluxo Temporal Oposto: Se pudéssemos observar esse outro lado, veríamos eventos ocorrendo do futuro em direção ao passado, a partir do ponto zero do Big Bang.

Resolvendo o Mistério da Matéria Escura

Uma das maiores vantagens dessa teoria é que ela resolve um dos maiores "enigmas de um trilhão de dólares" da astronomia: a Matéria Escura. Atualmente, os cientistas precisam inventar partículas exóticas e nunca detectadas para explicar por que as galáxias se mantêm unidas.

No modelo do universo espelhado, a matéria escura é explicada de forma muito mais simples. A teoria prevê a existência de um tipo específico de partícula chamada neutrino de mão direita. Enquanto todos os neutrinos que observamos "giram" para a esquerda, o universo CPT exige que existam versões que girem para a direita para manter o equilíbrio. Esses neutrinos seriam invisíveis, teriam massa e não interagiriam com a luz — a descrição perfeita para a matéria escura.


Contexto Histórico: A Simetria Através dos Tempos

A ideia de gêmeos invisíveis não é nova na física. Na década de 1920, Paul Dirac previu a existência da antimatéria através de puras equações matemáticas, algo que parecia impossível na época, mas que foi provado real pouco depois.

A física sempre buscou harmonia. Se o nosso universo parece "desequilibrado", a história da ciência nos ensina que, geralmente, é porque ainda não enxergamos o quadro completo. Assim como descobrimos que a Terra não era o centro do sistema solar, podemos estar prestes a descobrir que o nosso universo não é o centro — ou a totalidade — da realidade, mas apenas metade de um par perfeitamente sincronizado.


Conclusão: Somos Apenas Metade da História?

A teoria do universo gêmeo espelhado ainda aguarda confirmações experimentais, mas ela oferece uma elegância matemática que encanta os pesquisadores. Ela dispensa teorias complexas de "inflação cósmica" e simplifica nossa compreensão da matéria escura. Se confirmada, ela significaria que a realidade é muito mais vasta e simétrica do que jamais ousamos imaginar. O Big Bang não teria sido um ato de criação solitário, mas um espelhamento monumental que deu origem a dois mundos interdependentes, unidos pelo mesmo cordão umbilical do tempo e do espaço.


Referências

Boyle, L., Finn, K., & Turok, N. (2018). CPT-symmetric universe. Physical Review Letters, 121(25), 251301. https://doi.org/10.1103/PhysRevLett.121.251301

Boyle, L., & Turok, N. (2022). Two-sheeted universe and CPT symmetry. Annals of Physics, 438, 168767. https://doi.org/10.1016/j.aop.2022.168767

Dirac, P. A. M. (1928). The quantum theory of the electron. Proceedings of the Royal Society of London. Series A, 117(778), 610-624.

Perimeter Institute for Theoretical Physics. (2023). The CPT-Symmetric Universe: A New Cosmological Model. Scientific Reports. Ontario, Canada.

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