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Como Seis Adolescentes Sobreviveram 15 Meses em uma Ilha Deserta

A Verdadeira História do Senhor das Moscas: Como Seis Adolescentes Sobreviveram 15 Meses em uma Ilha Deserta

Por Heudes C. O. Rodrigues


Em 1954, o autor William Golding publicou "O Senhor das Moscas", uma obra de ficção que se tornaria um clássico da literatura mundial. No livro, um grupo de garotos britânicos fica preso em uma ilha deserta e, em pouco tempo, a ordem social colapsa, dando lugar à barbárie e à violência. Por décadas, essa história foi utilizada como uma metáfora sombria da natureza humana. No entanto, a realidade provou que Golding poderia estar errado.

Em junho de 1965, seis adolescentes de Tonga — Sione, Stephen, Kolo, David, Luke e Mano — viveram uma experiência idêntica na teoria, mas radicalmente diferente na prática. Esta é a crônica de como a cooperação, a disciplina e a amizade permitiram que um grupo de jovens sobrevivesse por 15 meses em um rochedo vulcânico isolado no Oceano Pacífico.

O Erro que Deu Início à Odisseia

Cansados da rotina rígida de sua escola católica em Nuku'alofa, os jovens, com idades entre 13 e 16 anos, decidiram arquitetar uma fuga. O plano era audacioso e, reconhecidamente, impensado: "pegar emprestado" o barco de um pescador local e navegar cerca de 800 quilômetros até Fiji ou, quem sabe, até a Nova Zelândia.

Com poucos suprimentos e nenhuma experiência real em navegação, eles partiram. O desastre não tardou. Durante a primeira noite, enquanto todos dormiam, uma tempestade severa atingiu a embarcação. O mastro quebrou e o leme foi destruído. Por oito dias, os meninos ficaram à deriva, sem água potável e sem comida, utilizando cascas de coco para coletar água da chuva e racionando o pouco que lhes restava, até que avistaram uma silhueta no horizonte: a ilha de 'Ata.

A Luta pela Vida no Rochedo de 'Ata

A ilha de 'Ata não era o paraíso tropical que se poderia imaginar. Tratava-se de um enorme rochedo vulcânico com falésias íngremes. Ao chegarem à costa, os meninos estavam debilitados, mas a vontade de viver prevaleceu. Inicialmente, sobreviveram comendo aves marinhas crus, ovos e peixes que conseguiam capturar na arrebentação.

A Ascensão ao Topo e a Descoberta de Recursos

A sorte do grupo mudou quando decidiram escalar os penhascos para explorar o planalto central da ilha. Lá, descobriram as ruínas de uma antiga vila, abandonada desde o século XIX, quando a população local foi sequestrada por traficantes de escravos. Para a surpresa dos garotos, a natureza havia preservado "tesouros": bananas, pés de taro e galinhas selvagens que se reproduziram ao longo de cem anos.

Com esses recursos, a dieta dos náufragos melhorou drasticamente, mas o maior desafio não era apenas físico, mas psicológico e social.

A Micro-Sociedade: Ordem em Vez de Caos

Ao contrário dos personagens de ficção que se voltaram uns contra os outros, os meninos de Tonga estabeleceram um sistema rigoroso de convivência. Eles entenderam que a divisão interna seria sua sentença de morte.

  • Trabalho em Duplas: Para garantir a eficiência e a segurança, eles operavam em turnos e duplas, dividindo as tarefas de vigia do fogo, coleta de alimentos e manutenção do abrigo.
  • Gestão de Conflitos: Quando uma briga surgia, a regra era clara: os envolvidos deveriam se afastar para lados opostos da ilha para se acalmarem por algumas horas antes de retornarem para pedir desculpas.
  • Saúde Mental e Espiritual: Todos os dias começavam e terminavam com cânticos e orações. Um dos jovens, Kolo, até improvisou um violão utilizando um pedaço de madeira, metade de uma casca de coco e fios de aço recuperados do barco naufragado para manter o moral do grupo elevado.
  • Inovação e Engenharia: Eles construíram galinheiros, um sistema de armazenamento de água utilizando troncos escavados e até um pequeno "ginásio" com pesos de pedra para manterem a força física.

Um exemplo notável de sua resiliência ocorreu quando Stephen quebrou a perna após uma queda. Os outros meninos imobilizaram o membro com talas de madeira e assumiram suas tarefas por meses. Quando foram resgatados, um médico ficou impressionado ao notar que o osso havia cicatrizado perfeitamente.

O Resgate e o Retorno Inesperado

Em 11 de setembro de 1966, o capitão australiano Peter Warner, navegando próximo à ilha, notou manchas de queimado incomuns nos penhascos. Ao se aproximar com seu barco, o Just David, ele foi surpreendido por um jovem nadando em sua direção, seguido por outros cinco. "Meu nome é Stephen", gritou o primeiro garoto. "Somos seis e achamos que estamos aqui há uns 15 meses".

Warner, inicialmente cético, entrou em contato via rádio com Nuku'alofa. A resposta que recebeu foi carregada de emoção: "Você os encontrou! Eles foram dados como mortos. Os funerais já foram realizados!".

Do Resgate à Prisão

A chegada em Tonga foi uma mistura de celebração e drama jurídico. O dono do barco que os meninos haviam "pegue emprestado" decidiu prestar queixa, e os sobreviventes foram presos imediatamente após o retorno. Foi Peter Warner quem interveio novamente. Percebendo o potencial daquela história extraordinária, ele pagou a indenização ao pescador e garantiu a liberdade dos jovens sob a condição de que eles participassem de um documentário reconstituindo seus dias na ilha.


Conclusão: Uma Lição sobre a Natureza Humana

A história dos meninos de 'Ata serve como um poderoso contraponto ao pessimismo antropológico. Enquanto a ficção muitas vezes nos diz que, sob pressão, nos tornamos monstros, a realidade desses seis adolescentes tonganeses sugere que a empatia, a organização social e a resiliência coletiva são as nossas ferramentas mais fortes de sobrevivência. Eles não sobreviveram apesar uns dos outros, mas por causa uns dos outros.

Hoje, esse episódio é estudado por sociólogos e psicólogos como um exemplo real de solidariedade humana em condições extremas, lembrando-nos que, mesmo nos momentos mais sombrios, a civilidade pode florescer onde menos se espera.


Referências

  • Bregman, R. (2020). Humankind: A Hopeful History. Little, Brown and Company.
  • Bregman, R. (2020, 9 de maio). The real Lord of the Flies: what happened when six boys were shipwrecked for 15 months. The Guardian. Recuperado de https://www.theguardian.com/books/2020/may/09/the-real-lord-of-the-flies-what-happened-when-six-boys-were-shipwrecked-for-15-months
  • Warner, P. (2019). Ocean of Light: 30 Years in Tonga and the Pacific. Independent Publishing.


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