O Dilema do Cobreiro: Por que o SUS Barrou a Vacina contra Herpes-Zóster em 2026?
Por: Heudes C. O. Rodrigues
Para quem já sentiu a dor lancinante do popular "cobreiro", a notícia caiu como um balde de água fria. No início de 2026, o Ministério da Saúde oficializou a decisão de não incorporar a vacina contra a herpes-zóster ao Calendário Nacional de Vacinação do Sistema Único de Saúde (SUS). Embora a eficácia do imunizante seja amplamente reconhecida pela comunidade científica, o entrave foi estritamente financeiro: o alto custo por dose e o impacto bilionário nas contas públicas.
A decisão coloca o Brasil em um impasse ético e econômico. De um lado, temos uma doença que pode causar dores crônicas incapacitantes em idosos; do outro, um orçamento público que precisa escolher quais batalhas pode lutar. Mas o que torna essa vacina tão cara e quais são as consequências dessa exclusão para a população brasileira?
O Inimigo Adormecido: O que é a Herpes-Zóster?
A herpes-zóster não é um vírus novo. Trata-se da reativação do Varicela-Zóster, o mesmo agente causador da catapora. Após a infecção inicial — geralmente na infância —, o vírus não abandona o corpo. Ele se retira para os gânglios nervosos, onde permanece em estado de dormência por décadas.
Com o envelhecimento ou a queda da imunidade, o vírus pode "despertar", percorrendo o nervo até a pele e causando erupções cutâneas dolorosas. No entanto, o verdadeiro perigo não são as bolhas, mas a neuralgia pós-herpética (NPH). Essa condição faz com que os nervos enviem sinais de dor intensa ao cérebro mesmo após as feridas cicatrizarem, podendo durar meses ou anos e destruindo a qualidade de vida do paciente.
A Ciência da Proteção: A Eficácia da Shingrix
A vacina avaliada pelo Ministério da Saúde, conhecida comercialmente como Shingrix, representa um salto tecnológico em relação às versões anteriores. Diferente de vacinas de vírus vivo atenuado, ela é uma vacina recombinante, o que permite que seja aplicada inclusive em pessoas imunossuprimidas (como pacientes com câncer ou transplantados).
- Eficácia Superior: Estudos mostram que o imunizante oferece proteção acima de 90% contra a doença em adultos com mais de 50 anos.
- Esquema Vacinal: A proteção completa exige duas doses, aplicadas com um intervalo de dois a seis meses.
- Prevenção de Sequelas: Além de evitar a doença, ela é extremamente eficaz em prevenir a neuralgia pós-herpética, a complicação mais temida pelos médicos.
O Nó Cego da Economia: Por que o "Não"?
A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) é o órgão responsável por analisar se um novo tratamento vale o investimento público. No caso da herpes-zóster, o veredito foi baseado na análise de custo-efetividade. O impacto orçamentário estimado seria de aproximadamente R$ 5,2 bilhões ao longo de cinco anos para vacinar o público-alvo prioritário.
O Preço da Dose vs. O Preço do SUS
Na rede privada, o esquema completo com as duas doses pode custar entre R$ 1.600 e R$ 2.400. Para que a vacina fosse considerada viável para a saúde pública brasileira, a Conitec estimou que o preço por dose precisaria cair drasticamente, chegando próximo a R$ 75,75 — um valor muito distante das propostas atuais da indústria farmacêutica.
O Ministério da Saúde justificou que, embora a doença seja grave, ela raramente leva ao óbito de forma direta, e o tratamento com antivirais (como o aciclovir) já é ofertado pelo SUS. Diante de outras prioridades, como a vacinação contra dengue e a modernização do tratamento de doenças infectocontagiosas agudas, o governo optou por manter a herpes-zóster fora da cobertura gratuita por enquanto.
O Cenário para o Paciente em 2026
Com a negativa do SUS, a prevenção da herpes-zóster permanece um privilégio de quem pode pagar. Especialistas alertam que isso aprofunda a desigualdade em saúde no país, já que a população idosa de baixa renda — a mais vulnerável às complicações da doença — continuará dependendo apenas de tratamentos paliativos após a infecção ocorrer.
Contudo, a porta não foi totalmente fechada. O Ministério da Saúde indicou que a decisão pode ser reavaliada se houver:
- Novas negociações de preço com o laboratório fabricante.
- Aparecimento de novos concorrentes no mercado de vacinas recombinantes.
- Dados epidemiológicos que demonstrem um custo de tratamento da neuralgia maior do que o da prevenção.
Conclusão
A exclusão da vacina contra a herpes-zóster do SUS em 2026 é um lembrete amargo de que a inovação médica caminha a passos mais rápidos do que a sustentabilidade financeira dos sistemas públicos de saúde. Enquanto a ciência vence batalhas biológicas contra os vírus, a gestão pública ainda luta para vencer a barreira dos cifrões. Para o brasileiro comum, resta a esperança de que futuras negociações tornem o direito de envelhecer sem dor algo acessível a todos, e não apenas a uma minoria bancarizada.
Referências
Agência Brasil. (2026). Ministério da Saúde decide não incorporar vacina herpes-zóster ao SUS. Recuperado de https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2026-01/ministerio-da-saude-decide-nao-incorporar-vacina-herpes-zoster-ao-sus
Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde - Conitec. (2025). Relatório para a Sociedade: Vacina recombinante para herpes-zóster. Brasília: Ministério da Saúde.
Infomoney. (2026). Herpes-zóster: Entenda por que Ministério da Saúde não vai incorporar a vacina no SUS. Recuperado de https://www.infomoney.com.br/saude/herpes-zoster-entenda-por-que-ministerio-da-saude-nao-vai-incorporar-a-vacina-no-sus/
Sociedade Brasileira de Imunizações - SBIm. (2024). Herpes-Zóster (Cobreiro): Guia de Prevenção e Tratamento. São Paulo: SBIm.
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