40% dos Novos Casos de Câncer são Evitáveis: Pesquisa Aponta os Dois Principais Hábitos de Risco
Por Heudes C. O. Rodrigues
Quando pensamos em câncer, é comum sentirmos que estamos à mercê de uma loteria genética ou de um destino inevitável. A palavra carrega um peso imenso e, muitas vezes, o medo nos paralisa. No entanto, uma nova e abrangente pesquisa científica traz uma luz de esperança e, ao mesmo tempo, um alerta severo: uma parcela significativa dos diagnósticos poderia nunca ter existido.
Dados recentes, corroborados por estudos da American Cancer Society e publicações globais de saúde, indicam que cerca de 40% dos novos casos de câncer em adultos e quase metade das mortes pela doença estão diretamente ligados a fatores de risco modificáveis. Ou seja, são consequências de escolhas de estilo de vida e exposições que, teoricamente, poderíamos controlar.
O dado mais impactante, contudo, é a concentração do perigo. Embora existam dezenas de fatores de risco, a grande maioria desses casos evitáveis está ligada a apenas dois hábitos principais.
O Peso dos Números: O Que Diz a Ciência
O estudo analisou a incidência de diversos tipos de câncer e cruzou esses dados com fatores de risco conhecidos. A conclusão é que não estamos lidando apenas com "má sorte" biológica. A biologia do câncer é complexa, mas o gatilho para a mutação celular muitas vezes vem de fora.
Para o público leigo, isso significa uma mudança de paradigma: deixamos de ser apenas pacientes em potencial para nos tornarmos agentes ativos na preservação da nossa própria saúde. Mas quais são os vilões dessa história? A resposta reside em dois velhos conhecidos da saúde pública.
Hábito 1: O Tabagismo (Ainda o Maior Inimigo)
Pode parecer notícia velha, mas o cigarro continua sendo o líder isolado no ranking de causas de câncer evitáveis. A pesquisa aponta que o tabagismo é responsável pela maior fatia desses 40%.
Muitas pessoas associam o cigarro apenas ao câncer de pulmão. No entanto, a ciência mostra que as substâncias tóxicas do tabaco viajam pela corrente sanguínea, danificando o DNA em células de todo o corpo. O tabagismo está fortemente ligado a cânceres de:
- Boca e garganta;
- Bexiga;
- Rim;
- Pâncreas;
- Colo do útero.
A fumaça do cigarro carrega milhares de substâncias químicas, das quais dezenas são comprovadamente carcinogênicas. Elas desativam os genes supressores de tumor (nossos guardiões naturais) e aceleram a divisão celular descontrolada.
Hábito 2: O Excesso de Peso Corporal
Aqui reside a grande surpresa para muitos e o ponto de maior alerta da nova pesquisa. O excesso de peso corporal consolidou-se como o segundo maior fator de risco evitável para o câncer, aproximando-se perigosamente do tabagismo em termos de impacto populacional.
Durante muito tempo, acreditou-se que a gordura corporal era apenas um depósito passivo de energia. Hoje, a ciência entende o tecido adiposo (gordura) como um órgão endócrino ativo. O excesso de gordura visceral provoca:
- Inflamação Crônica: Um estado de alerta constante no corpo que danifica o DNA ao longo do tempo.
- Desregulação Hormonal: Níveis elevados de insulina e estrogênio, que podem alimentar o crescimento de células cancerígenas.
Este fator está associado a pelo menos 13 tipos de câncer, incluindo o de mama (em mulheres na pós-menopausa), colorretal, esôfago, rim e endométrio.
Outros Fatores no Radar
Embora o tabagismo e o peso corporal sejam os protagonistas responsáveis pela maior fatia estatística, o estudo também destaca outros hábitos que compõem o restante da porcentagem de risco:
- Consumo de Álcool: Mesmo em quantidades moderadas, o álcool é metabolizado em acetaldeído, uma substância que danifica o DNA.
- Exposição aos raios UV: A falta de proteção solar continua impulsionando os casos de melanoma e outros cânceres de pele.
- Sedentarismo: A inatividade física contribui indiretamente (pelo ganho de peso) e diretamente para o risco de câncer.
Conclusão: O Poder da Escolha
A mensagem desta nova pesquisa não deve ser interpretada como um julgamento de culpa sobre quem adoece, mas sim como uma ferramenta de empoderamento para a sociedade. Saber que 40% dos casos são evitáveis significa que temos uma margem de manobra gigantesca para atuar.
A prevenção não exige milagres, mas consistência. Abandonar o tabagismo — em qualquer idade — reduz drasticamente os riscos. Da mesma forma, a busca por um peso saudável através de uma alimentação equilibrada e atividade física não é apenas uma questão estética, mas uma estratégia vital de defesa celular.
A ciência nos deu o mapa. Cabe a nós, agora, traçar o caminho.
Referências Bibliográficas
American Cancer Society. (2024). Cancer Facts & Figures 2024. Atlanta: American Cancer Society.
Islami, F., et al. (2024). Proportion and number of cancer cases and deaths attributable to potentially modifiable risk factors in the United States. CA: A Cancer Journal for Clinicians. https
0 Comentários